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O Mundo em Alerta


Enigma da terra - A velocidade com que as calotas polares estão derretendo surpreende os cientistas: é preciso andar rápido.

O desafio das 192 nações reunidas em Copenhague será construir um acordo em bases realistas

Ronaldo França
Revista Veja - 09/12/2009

A temperatura média da Terra subiu 0,8 grau nos últimos 100 anos.
– É menos de um grau em um século e ninguém deveria estar minimamente preocupado com isso – dizem alguns. 
– Pera lá – dizem outros –, esse ritmo de aquecimento é alucinante quando comparado ao metabolismo geoclimático natural que precisou de 12 000 anos para acrescentar 5 graus à temperatura média do planeta. Numa conta simples, o atual ritmo de aquecimento do planeta está quase vinte vezes acima do normal. Nessa velocidade, em vez de 12 000 anos, bastariam pouco mais de 600 anos para a temperatura subir os mesmos 5 graus. 
– Calma, gente – dizem os primeiros –, daqui a 2 000 anos todos nós estaremos mortos e nossos tatatatataranetos estarão vivendo em um planeta apenas 5 graus mais quentinho. 
– Calma nada, não estão vendo os furacões, as enchentes e as secas cada dia mais intensos e frequentes? Eles são apenas amostras grátis das catástrofes globais que esses poucos graus a mais vão provocar, ameaçando a existência da vida humana sobre a Terra.

Como é fácil de ver, essa discussão, nos termos em que vem sendo travada em muitos círculos, nada tem de científica. Os próprios cientistas têm uma montanha de culpa no cartório por se comportarem como místicos divididos sobre quantos anjos podem se equilibrar na cabeça de um alfinete em um assunto do mais alto significado para todos. A maioria deles diz que o mundo caminha para o desastre se não diminuir o volume de gases de efeito estufa jogado na atmosfera.

Outros, uma minoria, acreditam que a própria natureza regula as temperaturas por meio de processos gigantescos (a atividade solar ou as erupções vulcânicas), perto dos quais a fumacinha produzida pela humanidade não teria consequência significativa. No campo puramente científico, os dois grupos estariam empatados. Mas a política e a propaganda viraram o jogo para o lado dos catastrofistas, que hoje dão de goleada nos adversários.

A partir desta semana, 15 000 dos mais influentes terráqueos se reunirão em Copenhague, na Dinamarca, para participar da 15ª Reunião das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP15). Entre eles, representantes de 192 países e sessenta comitivas de chefes de estado. O COP15 vai tentar chegar a um acordo mundial para a redução da liberação de gases de efeito estufa na atmosfera. Ali será sacramentada a vitória dos cientistas catastrofistas sobre seus pares céticos em uma questão que já não é mais puramente científica.

VEJA QUADRO ABAIXO:
Da ciência ao apocalipse

Tudo o que os cientistas conseguiram pôr no papel até hoje é que a responsabilidade dos seres humanos é "muito provável". A expressão foi definida assim no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o corpo de cientistas reunidos pela Organização das Nações Unidas para tratar do assunto. Isso significa dizer que a emissão dos 50 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa pelas chaminés e canos de descarga, todo ano, impacta a vida no planeta, mas a ciência ainda não conseguiu juntar todas as provas necessárias para garantir que essa seja a razão principal. Seja como for, os governos de 192 países já decidiram não esperar mais. De alguma maneira, começarão a trabalhar agora para evitar que a humanidade produza uma concentração de gases de efeito estufa além do limite suportável pela atmosfera para que a temperatura média não suba além de 2 graus. Como se dará essa cruzada é a questão de fundo na reunião.

A complexidade das discussões se deve ao fato de que elas terão de fundamentar cálculos econômicos e políticos sobre uma base científica crivada de incertezas. Um exemplo é a própria estimativa sobre quanto o planeta se aquecerá até 2100. O máximo de precisão que se conseguiu estabelecer é que esse aumento se situará entre 1,8 grau e 4 graus. Do ponto de vista prático, isso equivale a dizer que o próximo bebê nascerá em Hong Kong ou Paris. É uma previsão, digamos, arriscada. Ciências climáticas estão entre as mais complexas do universo porque envolvem uma quantidade infinita de dados



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